Todos os dias
Vou andando para o trabalho. Dizem que é longe, mas eu prefiro assim. Às vezes tapo os ouvidos com música, mas sempre abro bem os olhos, apesar do sono. O mesmo caminho todos os dias. Vinte minutos de passos largos e apressados à margem do trânsito caótico de Botafogo. Entre buzinas e carros afoitos, percorro a São Clemente inteira no meu silêncio observador. Depois da parada obrigatória pra faturar um pãozinho de queijo com Nescau na Select, sigo o habitual trajeto. E não é só o caminho que se repete. Toda segunda tem feira na entrada do Santa Marta. Todo dia tem gente entrando no Motel Panda, logo cedo. Todas as manhãs me bato com a mesma menina punk, piercing no nariz, tatuagem nas pernas, violão nas costas. Eu vou, ela vem. No mesmo horário, na mesma altura da rua... impressionante. E assim também, todas as vezes passo pelo mesmo mendigo, um sujeito barrigudo, cabelos grisalhos, cara de gente boa, de quem perdeu a vida em algum momento do passado e não sabe mais quem é. Eu no meu silêncio, ele no silêncio dele. Olhando para o infinito, sem dizer uma única palavra. Sentado na grade do Santo Inácio, no mesmo lugar, calado. E eu voando, brigando com o relógio, passo pelos mesmos lugares e pelas mesmas pessoas com os olhos bem abertos como quem diz bom dia.

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