28.10.05

29

estou no limiar de já ter sido
e no entanto
falta tanto
pra alinhavar o meu tecido

23.10.05

Além do entendimento

Mais uma pérola do autor de "Amor de ostra" - Affonso Romano de Sant'Anna:

A essa altura
há coisas
que (ainda)
não entendo.

Por exemplo:
o amor. Faz tempo
que diante dele
me desoriento.

O amor é intempestivo
eu sou lento.
Quando ele sopra
- estatelado -
mais pareço
um catavento.

16.10.05

Ímpar

te amo ainda e apesar de tudo
meu coração visionário, deslumbrado, alienado
merece estudo.

9.10.05

Triste

Achei outro dia essa letra que escrevi para uma melodia linda de Daniel Lopes. Mary Lee podia gravar, hein?


Estrelas passeiam sem medo no olho da rua
E bocas se encontram perdidas e cheias de lua
Paixões e problemas se espalham sem anestesia
Por veias e vias de asfalto na sala vazia
A insônia em silêncio acorda a tristeza sem gosto
E inunda a cidade o sal que escorre do rosto

Ninguém assim tão só

Atores decoram seus textos e fazem cinema
Vivendo a ilusão em capítulos, cena por cena
Na estante olhares e livros já são particípio
Lunetas em outros planetas mas velhos princípios
Na festa da esquina meninas em saltos e saias
E artistas driblando o equilíbrio entre aplausos e vaias

Ninguém assim tão só

3.10.05

Capítulo único

O dia acordou de mau humor. Negras nuvens cobriam toda a extensão visível do céu, prestes a inundar sobre todas as cabeças um choro lastimável de criança quando cai. Lenços e guarda-chuvas invadiram as ruas assim que os primeiros pingos escorreram da face beterraba do firmamento. Não tardou e as ruas transformaram suas feições sonolentas em palcos de gritos histéricos de carros freando e acelerando sem sair da primeira marcha. O choro compulsivo alagava avenidas ao passo que bueiros entupidos cuspiam a água que tentava se apoderar deles. Nos pontos de ônibus, nas calçadas, gente atrasada tomava um banho de água fria pra espertar. Guarda-chuvas, muitos guarda-chuvas dançavam de um lado pro outro desafiando o peso do ar. Lambendo as gotas que escorriam, não protegiam ninguém, mas alegravam com suas cores e estampas diversas, a manhã em preto e branco que se desenhava. A cidade, na marra, desligava o despertador e se levantava, apesar dos pesares. Seria um dia qualquer, mais um dia de chuva e transtornos. E assim foi para muita gente.

Mas para ele, para ele o começo de um novo dia era o próprio transtorno, era um enfado maior do que a mais silenciosa Quarta-feira de Cinzas. Para ele, o grito insistente do despertador conseguia ser pior do que todas as buzinas de carros, do que a água gelada que escorria pela janela, do que a agonia de qualquer engarrafamento. Não queria retomar a lucidez. Doía demais protagonizar as cenas do próximo capítulo de uma novela que, ele sabia, não teria final feliz. Lutava, assim, para não contaminar os sonhos que ansiavam por desfechos perfeitos e se presenteava com os últimos minutos de sossego. Ele, muito mais cinzento do que o dia que atravessava a janela. Muito mais pesado que o ar frio que o instigava a permanecer debaixo de cobertas. Muito mais sombrio. Ele, o próprio choro que se derramava sobre toda a cidade. As lágrimas eram dele. Ele era a criança que caíra e que trazia, não o joelho, mas o coração estropiado em carne viva.